quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Direitos Humanos, crônica de Luis Fernando Veríssimo

Continuando, apresentarei dois textos do Veríssimo.
Os grifos são meus.
Lixo
18/07/1995
As pessoas que nos advertem contra “remoer”o passado tratam o passado como lixo. Mexer no passado só traz maus cheiros e coisas inúteis. O passado é o presente metabolizado e deixado para trás como resto, se tivéssemos o bom senso de outras espécies o enterraríamos. O jovem fascista de hoje vive em meio a velhos símbolos e velhos heróis, mas também considera o passado um lixo, para ser depurado da mentira dos outros e reciclado para novo uso. Pois outra propriedade do passado como matéria orgânica é que ele é instável, mudando de significado a cada hora. Cada vez mais o historiador é um laboratorista a tirar novas teses de velhos fatos e de detritos em decomposição. Documentos são degradáveis, lembranças pessoais são quase sempre versões convenientes, no fim a memória se volatiza como o fedor e o fato vira fóssil. O que não desaparece, paradoxalmente, são os desaparecidos. Esses deixaram mães, viúvas, filhos, parentes e amigos inconformados, que querem não vingança mas um corpo com valor legal e um túmulo identificável. E, acima de tudo, que os que morreram não sejam arrolados como lixo, no qual não se deve mexer por uma noção peculiar de polidez.
Numa entrevista à TVCom, da RBS do Rio Grande do Sul, o Éfe Agá disse que queria me ver no seu lugar para tratar dos desaparecidos, já que não existem documentos, indícios ou provas nas Forças Armadas ou em qualquer órgão do governo sobre eles. O presidente usou uma figura de retórica, não é verdade que gostaria de me ver em seu lugar. Eu até que aceitaria, já que, segundo ele, governar o Brasil não é tão difícil quanto parece, o horário é bom, o dinheiro é razoável, viaja-se muito, janta-se com a Marília Gabriela e há sempre a possibilidade de poder demitir o Andrade Vieira, que deve ser uma sensação boa. Mas o presidente estava apenas respondendo a um comentário que fiz aqui sobre o fato do esclarecimento do caso Rubens Paiva não estar entre suas prioridades pessoais, e agradeço a atenção e a educação. Só tem uma coisa, presidente. Indícios sobre os desaparecidos existem muitos, e a falta de documentos e provas é que pede uma determinação executiva. Com documentos e provas até eu.
Crônica retirada de um artigo da revista "O eixo e a roda: v.15, 2007. Belo Horizonte", com o título "Memória da Ditadura em Caio Fernando Abreu e Luis Fernando Veríssimo", escrito por Jaime Ginzburg. Disponível para leitura aqui.

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