terça-feira, 23 de março de 2010

Direitos Humanos, "Condomínio". Continuando com as provocações

Continuando as provocações novamente com Luis Fernando Veríssimo agora de um conto que retirei do livro "Outras do Analista de Bagé", Editoria L&PM 1982.

Esse conto traz muitas reflexões. Então bom texto!


Condomínio. Luis Fernando Veríssimo.


João, 39 anos, entrou no apartamento com um olhar tão estranho que sua mulher exclamou, quase o acusou:
- Você foi assaltado!
- Não, não...
Ele começou a desfazer o nó da gravata, maldita gravata. Continuou com o olhar perdido. O apartamento era novo. Ainda tinha o cheiro de tinta nova.
- Então viu um fantasma...
João mexeu os lábios. A intenção era um sorriso, mas não conseguiu.
- Isso mesmo. Vi um fantasma. No elevador.
- Olha os sapatos.
O prédio ainda não estava pronto. O chão da garagem, no subsolo, estava coberto de pó de cimento que pegava nos sapatos. A mulher não queria cimento no seu tapete novo. Tapete, não. Carpete.
- Sabe quem foi que subiu comigo no elevador?
- Quem?
- Um dos caras que me torturaram em 68.
- Você está maluco.
- Estou te dizendo. Reconheci na hora. Era o chefe deles.
- Como é que ele é?
- Forte. Está mais gordo agora. Meio careca. Mas a mesma cara.
- Olha o meu carpete, João!
- Deve morar no prédio. No oitavo. Apertou o botão do oitavo.
- No oitavo mora o Serginho. O melhor amigo do Vado.
- Do Vladimir?
João não gostava que chamassem o filho de nove anos pelo apelido.
- É. Os dois passam o dia inteiro na piscina do prédio. Se dão muito bem. O guri se chama Serginho.
- É isso. Ele se chamava Sérgio. Agora me lembro. Sérgio. Mas tinha um apelido. Como era o apelido?
João estava parado no meio da sala. A sala com poucos móveis ainda. Os poucos que tinham trazido do apartamento velho. A mulher estava escolhendo móveis novos. Finalmente tinham condições para montar um apartamento decente. João continuava com o olhar perdido. De pé no meio da sala. A gravata despencando de uma mão, a pasta de executivo na outra. As grandes janelas abertas do apartamento davam para uma encosta coberta de casebres. Mas além dos casebres se via o rio. Um pôr-do-sol de verão. As janelas ainda não tinham cortinas.
- João, por favor, tira os sapatos. Está deixando marcas no carpete.
- Puta que os pariu.
- Eu não entendo por que você ficou assim.
- Ó Sandra, você não vê o que que isso significa?
- Não. O que é que significa.
João olhou para a mulher. Sandra banhada em sol sobre o seu carpete. O território conquistado. Sandrinha do Alaska que um dia enfrentara toda a Brigada Militar a bolsadas e agora sonhava com cortinas para a sala. O que era mesmo que significava?

Por mais de um ano depois de ser solto João não conseguia dormir. De noite chorava no colo de Sandra. Ela afagava a sua cabeça. Pronto, pronto, isso passa. Ele se recusava a tomar qualquer coisa contra a dor ou para dar sono. O pai, médico, conseguiria o que ele quisesse, mas ele não queria nada. Arranjara trabalho - influência do pai - e o DOPS o deixara em paz. O emprego era bom, ele era bom no seu trabalho. Mas de noite chorava nos seios de Sandra. Eu não denunciei ninguém, Sandrinha. Não denunciei ninguém. Me quebraram mas eu não traí ninguém.
Pronto, pronto, isso passa.

- Você lavou as mãos, Vado?
Para construírem a área de lazer do edifício tinham tirado uma fatia do morro. Uma parte do terreno ainda não estava calçada. As crianças ficavam sujas de barro vermelho. O síndico reclamava, as crianças estavam enchendo a piscina de barro.
- Lavei, mãe.
Os três na mesa de jantar. A mesa ainda era a antiga. A nova ia chegar no outro dia.
- Vladimir, como é que se chama o pai do seu amigo?
- Do Serginho? Sei lá. Ele tem uma tartaruga que se chama Lopes.
- A tartaruga não interessa. O pai dele também se chama Sérgio?
- Sei lá.
Sandra:
- A mãe eu conheço. Se chama Leonor. Muito simpática. O marido eu nunca vi. Vai ver você subiu no elevador com uma visita.
- Não. Tinha o ar de quem estava chegando em casa. E deixou o carro na garagem também. Um Passat. Igual ao nosso.
- Ele reconheceu você?
- Não. Acho que não. Filho da Puta.
- Quem?
- Come, Vado.
- O nome desse menino é Vladimir.
- Eu acho o meu nome uma merda.
- Olha o palavrão.
- Ué, tu não disse um também?
- Cala a boca e come.
- Você provavelmente vai conhecê-lo hoje na reunião do condomínio.
- Essa não! Tinha me esquecido da reunião do condomínio. Porra.
- Olha aí! - acusou o filho, apontando com o garfo.
O interrogatório era feito por três, às vezes quatro. O que comandava se chamava Sérgio. Mas tinha um apelido. Como era mesmo que aquele outro preso dissera? Você caiu nas mãos do... Um apelido. Um nome de bicho. Como era? Você caiu nas mãos do... Esse é fogo. Mas ele não denunciara ninguém. Agüentara firme. Depois de um mês o tinham soltado. Ele nunca mais ouvira falar no tal de Sérgio. Forte. A voz rouca.

A reunião do condomínio era no apartamento do Miranda, no décimo. Comerciante, quarenta e poucos anos. Duas filhas adolescentes. Uma mulher que já fizera plástica e andava dentro do apartamento com um kaftan de seda multicolorido que zunia quando roçava no chão. A mulher recebia a todos com um grande sorriso artificial. Talvez a cirurgia não tivesse dado certo e o sorriso fosse permanente.
- Vamos sentando, pessoal. A gente mais ou menos já se conhece, não é mesmo?
- As mulheres já se conheciam. Os homens, só de encontros casuais no elevador ou na garagem. Eram os primeiros proprietários do Sunset Palace (“Um prêmio dourado para quem subiu na vida”, a frase nos anúncios) e estavam todos no prédio há pouco tempo. João ouviu Sandra elogiando as cortinas da senhora Miranda.
- Ainda não consegui botar as minhas...
Mulheres para um lado, homens para o outro. Oito casais. Faltavam só os pais do Serginho, do oitavo. Miranda esfregou as mãos. Acho que com este calor vai todo mundo na cerveja, é ou não é?
- Vamos lá.
- Pra mim está ótimo.
- Está falando a minha língua.
Um certo constrangimento entre os homens naquele primeiro contato social. Miranda, temendo ser mal compreendido, declarou que para quem não quisesse cerveja havia uísque, do legítimo. Fez questão de mostrar sua coleção de uísques estrangeiros. Mas todos concordaram que, em certas ocasiões, nada como uma boa cerveja. O Pires do sétimo - magro, mas com uma barriguinha já esticando a camisa comprada em butique - anunciou que ia dizer uma coisa. Todos se viraram para ele. Na falta geral de assunto, quem propusesse qualquer um tinha a atenção dedicada dos demais. O Pires então disse que preferia a cerveja em qualquer ocasião. Os outros sacudiram a cabeça, gravemente. Então o Lima do quinto começou:
- Isso me faz lembrar aquela anedota, eu sou péssimo em anedota, mas...
- João não ouviu a anedota. Ouviu a campainha de dois tons tocar e a senhora Miranda zunir na direção da porta com seu sorriso prêt-a-porter. Eram os pais do Serginho do oitavo. Os olhos de Sérgio e de João se encontraram. Sérgio deu um abano amistoso. Afinal, já se conheciam. Pelo menos de uma viagem de elevador.

Quando ele contou ao pai o que tinha passado no interrogatório, ouviu do pai uma frase surpreendente. Então vê se agora você toma jeito. O pai tinha os olhos cheios de lágrimas. Puta que os pariu. Lágrimas pelo que o filho tinha passado ou pelo que tinha feito com o nome deles. Traição. Um subversivo na família.

- Acho que o nosso maior problema - disse Miranda, dando início, informalmente, à parte formal da reunião - são os assaltos.
- Ai meu Deus, nem fale! - disse a senhora Pires.
- Infelizmente - continuou Miranda - estamos numa zona perigosa. Aqui tem malocas de todos os lados. Eu sei que a prefeitura vai remover mas por enquanto elas estão aí. E todos nós temos aqui temos um patrimônio valioso que precisamos defender.
- Inclusive as nossas vidas - disse Sérgio. A voz rouca era a mesma.
- Exato - disse Miranda. - O doutor Sérgio, aqui, para os que não sabem, é dono de uma firma de vigilância. Uma das maiores que existem.
- Vigilância e segurança - corrigiu Sérgio.
- Ele quer nos propor uma coisa. Doutor Sérgio com a palavra.
Sérgio falou olhando diretamente para João.
- A minha proposta é a seguinte. Posso dispor de oito ou dez homens para fazerem a segurança do prédio, em rodízio. É gente minha que faria hora extra. Por conta da firma, é claro, já que o principal interessado sou eu mesmo. O resto dos condôminos só pagaria uma quantia pequena para eu poder contabilizar. Senão meus sócios podem me acusar de estar usando a firma em proveito próprio. É isso. Nós teríamos, dia e noite, sempre dois ou três homens vigiando o prédio.
- Eu acho ótimo - disse o Pires.
- Olha que esta zona é braba - reforçou o Miranda.
- E não são só os assaltos. Qualquer dia vai ter criança desse morro aí atrás querendo pular o muro para entrar na piscina - disse a sra. Miranda, sem parar de sorrir.
- Eu acho isso até pior do que assalto - disse João, mas ninguém notou a ironia. Nem Sandra.
- O que é que vocês dizem? - quis saber Miranda.
Todos votaram a favor. Menos João. Quando chegou a sua vez de falar, ele disse que não sabia.
- Como, não sabe? - disse o Lima do quinto. - Você já viu a cara dessa negrada que mora aí perto? É tudo bandido. Está tudo esperando a hora de nos passar na faca.
- Tem uma coisa - disse o Pires. - A decisão tem que ser unânime. Afinal, a vigilância vai proteger a todos, os que pagam e os que não pagam. Então, ou todos pagam ou ninguém paga. Respeitando a opinião do senhor.
Um certo ressentimento. João sentindo o olhar de Sandra no seu rosto. Riu e disse:
- Por favor, só não me chame de senhor.
Todos riram. O João parecia difícil, mas era boa praça. E não ficava bem, divergências logo na primeira reunião. Estavam todos juntos naquela cidadela. Tinham que se entender. João aproveitou a descontração. Continuou:
- O prédio já não tem dois porteiros?
Seu Leiva, o síndico, falou pela primeira vez.
- Não adiantam muita coisa. O seu Valdir já está velho e o outro, não sei não.
- Também tem cara de bandido - observou a mulher do Lima.
- E nenhum dos dois tem arma - disse Miranda.
- Mas também ninguém está esperando um ataque com massa, não é? - disse João. Desta vez ninguém riu com ele.
- Pois nem disso eu duvido - disse Miranda. - Essa gente está ficando atrevida. Volta e meia fazem um quebra-quebra. Não viram ontem, no Jornal Nacional?
- Pobre gente... - suspirou a mulher do Pires, magra e triste. Seus cabelos encaracolados pareciam ter sido acrescentados à última hora para disfarçar a melancolia. Sem sucesso.
- É uma pobre gente - concordou Miranda - mas também tem muito vagabundo no meio. Marginal mesmo. Emprego é o que não falta neste país, mas trabalhar que é bom ninguém quer. Preferem tirar o nosso dinheiro. Está fácil. O negócio é dificultar. Eu, por exemplo, tenho uma arma em casa e outra no carro. Vagabundo nenhum vai tirar o que é meu sem uma briga.
João tentou encontrar o olhar de Sandra. Ela estava olhando para o Pires, que anunciava uma declaração com a mesma solenidade com que proclamara seu gosto pela cerveja.
- Vou dizer uma coisa - disse o Pires. - Eu acho que a coisa está chegando num ponto em que a gente tem que reagir no pau. Tem que matar meia dúzia em praça pública que aí o resto sossega. Esse negócio de direitos humanos é muito bonitinho mas em país desenvolvido. Aqui não. Aqui é nós ou eles.
- Credo, Pires - disse a mulher do orador, olhando em volta. Podiam pensar que o Pires era um reacionário.
- Está certo - continuou o Pires. - É um problema social e coisa e tal. Mas o governo que acabe com a miséria. Eu defendo o meu patrimônio. Trabalhei por ele, não tirei de ninguém, tenho direito, é meu e vagabundo nenhum vai botar a mão.
- Concordo cem por cento - disse o Miranda, que tinha o hábito de sacudir as pernas, como se estivesse fazendo cavalinho para as duas filhas, quando falava. Devia ser um ótimo pai. - Em vez de processarem a polícia, tinham que dar mais força. Eu, por exemplo, sempre fui a favor do esquadrão da morte.
Sandra fitava as próprias mãos. Sérgio também tinha os olhos baixos. Modestamente. Ao seu lado dona Leonor, gorda e bonachona, parecia estar pensando em outra coisa. Bolos e costuras, a sua segurança. Nós finalmente encontramos o inimigo, pensou João, e ele tem a cara de uma tia boa. O Lima disse que realmente os marginais estavam se passando. Seu Leiva arrematou:
- E agora estão aí os comunistas de volta para pôr lenha na fogueira. Baderna é com eles.

Seu esquerdinha veado! Filhinho de papai. Está pensando o quê? Sérgio falava com o rosto bem perto do de João. Não fizera nenhuma questão de esconder sua identidade. Forçava João a lhe olhar na cara. Comunista tem que morrer! Ele tinha um apelido. Como era? Um nome de bicho. Ele mesmo se chamara pelo apelido. Para enfrentar o... tem que ter culhão. Tu tem culhão, veado? A mão entre as pernas de João para apertar os testículos. Cara a cara. Mas ele enfrentara o bicho. Perdera os sentidos antes de trair os companheiros.

- Proponho uma votação.
A sugestão foi de Müller, do terceiro. Sérgio concordou sorrindo.
- Afinal, a abertura democrática está aí mesmo.
- Mas se o nosso amigo aqui votar contra...
Sandra interveio:
- Se ele votar contra, eu voto a favor.
Risadas e palmas.
- Aí, hem? Uma rebelião dentro de casa.
Sandra se justificou.
- Cada vez que a gente põe o carro na garagem, de noite, eu sempre tenho a certeza que vai aparecer alguém para nos assaltar.
- Nem me fale - disse a senhora Pires.
Miranda levantou-se um salto. Foi buscar mais cerveja. A senhora Miranda anunciou que na mesa da sala de jantar tinha salgadinhos para quem quisesse. Alguém gritou:
- Já estou começando a gostar da vizinhança!
Não havia mais constrangimento entre eles. Todos eram mais ou menos da mesma idade e da mesma classe. Se entendiam bem. Seria um prédio feliz. Seu Leiva, o síndico, disse que havia outros assuntos para tratar. As crianças estavam enchendo a piscina de barro. Até uma tartaruga aparecera na piscina. Mas Pires, a caminho dos salgadinhos, declarou:
- Fica para depois da comida, seu Leiva!

Nunca mais tinha ouvido falar em Sérgio. Não sabia se era do DOPS ou militar. O pai não queria saber nada a respeito. O senhor acha que eles tinham razão de me torturar, papai? Eu só acho que você perdeu muito tempo com esse negócio de política. Vai cuidar da tua vida, formar uma família. Você não vai reformar o mundo. Podia ter morrido, podia ter matado a sua mãe e a sua mulher de desgosto e não teria mudado nada.
Um dos companheiros tinha desaparecido. Dois tinham se exilado. Mas ele não traíra ninguém.

Acabaram ficando sozinhos na sala dos Miranda. Os outros rodeavam a mesa na sala de jantar. O Lima contava outra anedota. João ficara numa poltrona. Sérgio no sofá. Cara a cara.
- Vocês são do sétimo, certo?
- É, e vocês...
- Oitavo. Conheço o seu guri. O Vado.
- Vladimir.
- É um pouco mais moço do que o meu, o Serginho.
- Ele tem nove.
- O Serginho vai fazer nove. Se dão muito bem.
- O Vladimir nasceu dois anos depois que eu fui solto. Até havia dúvida se eu podia ter filhos. Depois do que me fizeram...
Por que eu não disse “depois do que vocês me fizeram”? pensou João. Sérgio não mudou de expressão. Ficou em silêncio, olhando para João. Talvez estivesse tentando se lembrar. Mas continuou em silêncio. João falou mais. Estava calmo. Era estranho. Não sentia nada.
- Passei mais de um ano com dores. Quase não conseguia dormir.
O que era aquilo? Um apelo ao remorso? Você não tem jeito, João. Dona Leonor veio saber se o marido queria alguma coisa da mesa. Ele disse que não. Dona Leonor se virou para João.
- E o senhor, não quer nada?
- Só quero que a senhora não me chame de senhor. Obrigado.
Os dois de novo sozinhos. Sérgio tomou um gole de cerveja. Ainda em silêncio. João perguntou:
- Como era o seu apelido? Você tinha um apelido.
- Eu?
- É. Não consigo me lembrar.
- Faz tanto tempo.
O filho da puta se lembrava de tudo. Se lembrara de tudo no momento em que vira João. Por alguma razão, João considerou isto uma vitória.
- Eu não me esqueci de nada. Só do seu apelido.
Os outros começaram a voltar para a sala. O Lima do quinto combinava a inauguração da churrasqueira do prédio para o próximo domingo. Todos se cotizariam para comprar a carne. A não ser que o João não quisesse pagar, é claro. Todos riram. João disse que ia pensar no assunto.
- O que é que o amigo faz? - perguntou Miranda a João. - Desculpe a indiscrição.
João era economista. Deu o nome da firma em que era assessor da diretoria. Isso impressionou os outros. João dissera o nome da empresa exatamente para impressionar os outros. Era sua credencial do condomínio, também tinha o que defender da horda.
- Você também tinha um codinome.
João olhou rapidamente para Sérgio. Os outros não estavam ouvindo.
- Eu?
- Tinha. Me esqueci como era. Essas coisas não têm mais importância.
Dona Leonor se sentou ao lado do marido no sofá. Pôs a mão na sua coxa como se fosse um dever. Falou para João.
- O filho de vocês é um mimo!
- Eu ainda não conheci o Serginho...
- Eles vivem no apartamento um do outro. São unha e carne.
João se lembrava. Era verdade. Também tinha um codinome na época. Um bicho. Qual? Diabo de memória. Era importante. A senhora Miranda chamou as mulheres para verem o resto do apartamento. O único do prédio que já estava completamente decorado. Sandra era a mais animada. Dona Leonor foi junto. O Pires lançou a idéia de usarem a parte sem pavimentação da área de lazer para jogarem futebol. João estava ferido. O filho da puta ainda o forçava a lhe olhar na cara. Nenhum remorso. O Pires perguntou se João gostava de futebol.
- Gosto, gosto. Estou um pouco fora de forma, mas...
Seu Leiva insistia para que discutissem a questão da piscina. João inclinou-se na poltrona. Sérgio estava falando baixo.
- Soubemos quem você era. Filho de quem. Seu pai mexeu os pauzinhos e você foi solto.
- Meu pai não mexeu pauzinho nenhum. Vocês me soltaram porque não conseguiram me dobrar. Me quebraram, mas eu não traí ninguém.
Sérgio fez um gesto com as mãos. Uma das mãos segurava o copo vazio de cerveja. Queria dizer que não tinha importância. Que não pretendia discutir mais o assunto.
- Já podemos formar os times - disse o Pires. - Dá cinco para cada lado. Fora a gurizada, é claro.
- Vocês não me dobraram!
- Pode ser grenal. Quem é que é colorado aqui?
- Eu - disse João.
- Eu - disse Sérgio.
- A gente podia fazer um futebolzinho antes do churrasco, domingo.
- Eu topo - disse Sérgio.
- Contem comigo - disse João.

No interrogatório um deles, um preto grande, tinha dito, esses burguesinhos se entregam logo. Burguesinho de merda. Mas ele não traíra ninguém. Ele não se entregara. Como era mesmo o seu codinome? Fazia tanto tempo.

- Pai, o pai do Serginho mandou dizer que é pra tu não esquecer o dinheiro da carne.
- Está bem, Vado.
- Ué, me chamando de Vado?
- Vladimir. O seu nome é Vladimir. Nunca esqueça isso.
Talvez tivesse denunciado alguém. Depois de inconsciente. Talvez tivesse falado. Um dos companheiros tinha desaparecido. Dois tinham se exilado. Mas ele não traíra ninguém. Conscientemente, ninguém.

Fazia tanto tempo. No futebol, domingo, antes do churrasco, arranjou para não ficar no mesmo time com Sérgio. Isto, pelo menos, não. No morro, do outro lado do muro, uma multidão se reuniu para ver o jogo deles. Depois o churrasco e o banho de piscina. João tentou discernir os seus rostos mas não enxergava a expressão de ninguém. Procurou uma maneira de mostrar que estava daquele lado do muro mas na verdade não estava, estava do lado deles. Codinome... Mas não havia maneira. Quando começou a escurecer, deixaram a piscina e entraram no palácio. Vado foi ver os “Trapalhões” no apartamento de Serginho.

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