terça-feira, 1 de junho de 2010

Homens invisíveis

Resolvi palpitar. Pessoas podem achar que palavras não mudam nada, não ajudam ninguém. (Pra quem concorda com isso tente ler Freud). Escrever é um exercício, alivia o peso e traz o privilégio da reflexão pausada, cuidadosa. Faz sentir melhor também.
Essa reflexão é um exercício de um curso sobre Direitos Humanos e Mediação de Conflitos que estou fazendo através do ITS Instituto de Tecnologia Social (?), ligado à Secretaria Especial de Direitos Humanos. A proposta é analisar uma imagem e produzir qualquer tipo de texto, em qualquer formato.
A ideia é até interessante: pessoas com qualquer grau de experiência na área se reúnem virtualmente e discutem ideias e textos. Teoricamente. Na prática deixa a desejar, principalmente pela superficialidade das discussões e o grau de abstração das mesmas. Sem contar os erros gramaticais grotescos. Enfim, a discussão da eficácia das políticas públicas para os Direitos Humanos fica pra depois. E as restrições que um curso on-line oferece também.
Segue o primeiro post.


Homens invisíveis



Pés cansados de andar, andar e andar;
não sabe pra onde ir, nem tem onde dormir.
Seus olhos ardem. Ardem com a fumaça, o frio.
E lágrimas escorrem em sua pele seca e endurecida.
O estômago grita, mas ele já se acostumou.
Na passagem dos dias não sente mais os olhares de nojo e reprovação.
Pra que tomar banho? Prefere beber a água, matar a sede aplaca o ódio que o acompanha todos os dias.



Dorme em uma casa de papelão.
Mas quando chove as gotas d’água doem.
Água bendita, água maldita.
O vento corta sua pele sofrida.
Os olhos sempre ardendo.
E a fome, maldito estômago que grita.

Um dia de fúria.
Chuva, vento e dor.
O ódio desperta antigas sensações.
Lembranças de outros tempos escorrem por seus olhos cansados.

O outro homem come restos de lixo, satisfeito.
Felicidade momentânea.
Golpes de barra de ferro interrompem sua refeição e espirram sangue por toda a rua.
Ninguém vê.
Carne podre engana a fome.
Gotas de chuva lavam o vermelho da calçada.
E o estômago ainda grita.




Rebeca Serrano

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