terça-feira, 22 de junho de 2010

Ópera do Malandro - I

Existem termos clássicos que são o máximo da tensão entre duas palavras. Indústria Cultural, Teoria Crítica, Servidão Voluntária e provavelmente tantos outros que trombamos no cotidiano e nem percebemos. E um deles é Ópera do Malandro.

Ópera é uma modalidade da música erudita. Algo como um teatro cantado, uma orquestra tocando e solistas com figurinos à risca encenam uma peça que não é falada, mas sim cantada. Malandro é a gíria do brasileiro genérico romantizado. Aquele carioca de chapéu panamá, camisa listrada de branco e vermelho, com sapatinhos bem engraxado, navalha no bolso que faz a vida por biscates, já trabalhar não é com ele.

Portanto Ópera e Malandro são dois termos que criam uma grande tensão quando colocados juntos. É possível uma ópera de um malandro? Aliás d'O Malandro brasileiro genérico?

Talvez os mais estudiosos da música diriam que isso é a Opereta, uma modalidade mais leve e humorada da Ópera. Não sei. E não é disso que quero palpitar! Mas é um bom assunto, pra outra hora!

A "Ópera do Malandro" que vou tratar aqui é do disco de Chico Buarque de 1979. Cheio de participações pra lá de especiais. Virou teatro e virou filme, mas em cada música, Chico dá um tapa na cara da nossa sociedade burguesa!

Toda a obra é inspirada em outras duas: The Beggar's Opera (Ópera dos Mendigos ou Ópera dos vagabundos) de 1728 composta por John Gay e Die Dreigroschenoper (A Ópera dos Três Vinténs) um teatro alemão de Bertold Brecht de 1928. Das quais nada conheço, então, nada tenho para palpitar...


A música que abre o disco "O Malandro" é uma adaptação da música Die Moritat vom Mackie Messer presente na peça do Brecht, aqui um vídeo dela sendo interpretada por Servio Tulio (voz) e Glauco Baptista (piano):


O malandro, interpretada por Chico Buarque e o grupo MPB4 é uma ótima aula de economia! Fica fácil de entender o que é inflação. E fica evidente a culpabilização sempre do mais fraco, o uso da superioridade econômica como justificativa de subjugar o outro.


O malandro/Na dureza/Senta à mesa/Do café/Bebe um gole/De cachaça/Acha graça/E dá no pé
O garçom/No prejuízo/Sem sorriso/Sem freguês/De passagem/Pela caixa/Dá uma baixa/No português
O galego/Acha estranho/Que o seu ganho/Tá um horror/Pega o lápis/Soma os canos/Passa os danos/Pro distribuidor
Mas o frete/Vê que ao todo/Há engodo/Nos papéis/E pra cima/Do alambique/Dá um trambique/De cem mil réis
O usineiro/Nessa luta/Grita(ponte que partiu)/Não é idiota/Trunca a nota/Lesa o Banco/Do Brasil
Nosso banco/Tá cotado/No mercado/Exterior/Então taxa/A cachaça/A um preço/Assutador
Mas os ianques/Com seus tanques/Têm bem mais o/Que fazer/E proíbem/Os soldados/Aliados/De beber
A cachaça/Tá parada/Rejeitada/No barril/O alambique/Tem chilique/Contra o Banco/Do Brasil
O usineiro/Faz barulho/Com orgulho/De produtor/Mas a sua/Raiva cega/Descarrega/No carregador
Este chega/Pro galego/Nega arrego/Cobra mais/A cachaça/Tá de graça/Mas o frete/Como é que faz?
O galego/Tá apertado/Pro seu lado/Não tá bom/Então deixa/Congelada/A mesada/Do garçom
O garçom vê/Um malandro/Sai gritando/Pega ladrão/E o malandro/Autuado/É julgado e condenado culpado/Pela situação

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