segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Movimento estudantil e luta de classes: O processo grupal como instrumento de luta

Movimento estudantil e luta de classes: O processo grupal como instrumento de luta

Este ensaio tem como objetivo utilizar a teoria do processo grupal do psicólogo salvadorenho Ignacio Martín-Baró e de Silvia Lane para analisar a necessidade de uma militância ativa do movimento estudantil, em particular na Unesp câmpus de Bauru, para que este possa se tornar um movimento de prática transformadora.
O processo grupal é uma proposta de trabalho dentro das teorias de dinâmica de grupos da Psicologia e postula que o grupo é “uma estrutura de vínculos e relações entre pessoas que canaliza em cada circunstância suas necessidades individuais e/ou interesses coletivos” (MARTÍN-BARÓ, 1989). Os grupos para se constituírem enquanto processos grupais devem possuir três características básicas: (i) – identidade, que se divide em formalização organizativa, relações com outros grupos e consciência de pertencer a um grupo, (ii) – poder e, (iii) – atividade.
Os processos grupais são classificados em primário, funcional e estrutural. O grupo primário é responsável pela satisfação das necessidades mais pessoais. Os grupos funcionais são aqueles que correspondem à divisão do trabalho no interior de um determinado sistema social, aqueles que ocupam e cumprem função equivalente. E o grupo estrutural é a divisão da sociedade em classes: os que possuem controle dos meios de produção e os que não possuem.
Dentro da universidade pública as relações de poder acontecem, entre outras, na disputa entre dois grupos funcionais: o movimento estudantil, que visa representar a defesa da universidade pública e a direção acadêmica, representante dos interesses do estado, que, atualmente, se insere em uma lógica de mercantilização das relações acadêmicas e de criminalização do movimento estudantil.
Atualmente dentre as dificuldades encontradas, existem graves entraves dentro da organização deste movimento que podem ser classificados como (i) falta de comprometimento individual – indisciplina, desleixo, falta de iniciativa e irresponsabilidade com a causa; (ii) de discordância de ideias – sectarismo, vanguardismo, basismo, assédio ideológico, oportunismo e patrulhamento ideológico; e (iii) da não clareza dos objetivos da causa – burocratismo, inconstância, pessimismo e/ou otimismo exacerbado, deslealdade à classe trabalhadora.
Sabendo que não há “práxis revolucionária sem consciência de classe e sem organização política” (VÁZQUEZ, 2007), a militância do movimento estudantil deve ter como atividade principal uma oposição à direção acadêmica, e esta deve ser mais que simples reivindicação de direitos e condições básicas, é necessária uma “visão de totalidade do campo dentro do qual se inscrevem, de uma definição clara do adversário, (...) e, de uma organização” (HOUTART, 2007), mais facilmente alcançadas quando o grupo se estrutura de acordo com a teoria do processo grupal.

Martín-Baró, Ignacio. Sistema, grupo y poder. Psicología Social desde Centroamérica II. San Salvador, El Salvador. UCA Editores. 1989.
Houtart, François. Os movimentos sociais e a construção de um novo sujeito histórico. In: Borón, Atilio A.; Amadeo, Javier; González, Sabrina (orgs.). A teoria marxista hoje: problemas e perspectivas. São Paulo: CLACSO, Editora Expressão Popular. 2007.
           Sanchéz Vázquez, Adolfo. Filosofia da Práxis. São Paulo: CLACSO, Editora Expressão Popular, 2007.

Laís Sandi Foganholo - Unesp Bauru
Henrique Meira de Castro - PUC-SP

III EIV – SP (Coletivo Estágio Interdisciplinar de Vivências São Paulo – Da necessidade de identificar e corrigir os desvios de conduta no movimento estudantil para forjar valores de uma prática militante. Sem data. Disponível em http://scr.bi/ggNKG1

Houtart, François. Os movimentos sociais e a construção de um novo sujeito histórico. In: Borón, Atilio A.; Amadeo, Javier; González, Sabrina (orgs.). A teoria marxista hoje: problemas e perspectivas. São Paulo: CLACSO, Editora Expressão Popular. 2007.

Iasi, Mauro Luís (2006). Apresentação: Nada deve parecer impossível de ser mudado. Em. Beer, M. História do Socialismo e das lutas sociais. São Paulo, SP: Expressão Popular.
  
Lane, Sílvia Tatiane Maurer (1984). O processo grupal. Em Lane, S.T.M & Codo, W. (orgs.) Psicologia Social: O homem em movimento. São Paulo, SP: Brasiliense.
Martín-Baró, Ignacio. Sistema, grupo y poder. Psicología Social desde Centroamérica II. San Salvador, El Salvador. UCA Editores. 1989.

Martins, Sueli Terezinha Ferreira. (2003). Processo grupal e a questão do poder em Martín-Baró. Psicologia & Sociedade: 15 (1). Jan/jun.2003.

Sanchéz Vázquez, Adolfo. Filosofia da Práxis. São Paulo: CLACSO, Editora Expressão Popular, 2007.

Vecchia, Marcelo Dalla (2011). Trabalho em Equipe na atenção primária à saúde: O processo grupal como unidade de análise da dialética cooperação-trabalho coletivo. Tese de Doutorado do programa de Pós-Graduação em Saúe Coletiva da Unesp de Botucatu.


Textos disponíveis online

Martín-Baró:
El Grupo Funcional - http://bit.ly/MB-GFuncional
El Grupo Humano - http://bit.ly/MB-PG



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