19 de outubro de 2012

Medo e relações de poder: uma contribuição para a Psicologia da Educação

Las manos de America Latina - Oswaldo Guayasamín

"Medo e relações de poder: uma contribuição para a Psicologia da Educação" é o título da minha dissertação de mestrado, defendida dia 16 de outubro de 2012, e fico satisfeito em poder dividí-la pelo Palpitando.

Espero que possam fazer uma leitura crítica e ajudarem a construir e acumular conhecimento sobre o tema, no caminho para a luta e superação dessa sociedade de classes que vivemos.

A dissertação está disponível na Biblioteca da PUC-SP, mas também está disponível no Academia.edu, nesse link

E também online, onde mais me orgulho, no Vigotski.net em vigotski.net/ditebras.html#castro


12 de outubro de 2012

Palavras enterradas no chão

Palavras enterradas no chão

Sair do interior
e vir morar em São Paulo,
entre tantas coisas
é perder o significado de algumas expressões.
Estação perde o brilho do sol e o aconchego do frio,
Verão, outono, inverno, primavera
já nem sei mais o que são.
Brigadeiro, armênia, consolação, república
viraram buracos, enterrados no chão.


(Henrique Castro,
São Paulo - 12/10/2012)

Congresso Internacional do Medo


Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

Carlos Drummond de Andrade

4 de outubro de 2012

Linha 4-Amarela do Metrô, Privatização de serviços e qualidade para o usuário.

Linha 4-Amarela do Metrô, Privatização de serviços e qualidade para o usuário. Palavras que não combinam

A linha 4-Amarela do Metrô de São Paulo é a maior prova de como a iniciativa privada não deve ser responsável por ABSOLUTAMENTE NENHUM serviço prestado à população.

A linha 4 é recente, toda ela no Século XXI, com tecnlogia e designs inteligentes e descolados, bem iluminada e ventilada, mas COMPLETAMENTE incapaz de realizar sua função de forma adequada.

As primeiras linhas do metrô de São Paulo foram construídas na década de 70 e algumas novas estações surgiram nas décadas de 80 e 90. Foram obras bem pensadas e construídas, que até há poucos anos eram exemplos para metrôs do mundo inteiro. Durante décadas funcionaram de forma exemplar e sem lotações e mesmo com o gigante aumento populacional da capital paulista elas continuaram servindo bem. É óbvio que atualmente não dão conta, mas são estações adequadas, o que faltam são novas linhas e estações.



Pois bem, para isso planejaram uma nova linha, a linha 4-amarela, que como tudo nessa geração tucana foi dada de presente aos grandes empresários de qualquer parte do mundo. A construção da linha amarela teve como marca uma tragédia na estação Pinheiros, que por ser mal feita desabou engolindo casas, carros e pessoas.



E como que um negócio desses acontece? A iniciativa privada tem por questão primordial se preocupar com o próprio umbigo, e quando vai construir algo que não é para seu próprio usofruto (como seus imperiais arranha-céus e sedes) se utiliza do que for necessário para poupar dinheiro. Mesmo que isso signifique materiais de melhor qualidade, piores condições de trabalho, entre outras estratégias.

E tem como marca de funcionamento sua ineficiência de serviços. A linha amarela tem trens mais estreitos, as estações são apertadas e as escadas rolantes e elevadores são monstruosamente muito menores do que o necessário. São estações que forem construídas com vistas a economizar dinheiro e não proporcionar qualidade de serviços.



A linha amarela tinha como motivo e propaganda ser a linha da "integração" e é verdade se liga às linhas 1, 2 e 3 do metrô e também à algumas da CPTM e curiosamente não foi construída para abrigar todo esse fluxo.

Estações construídas 40 anos atrás estão mais bem preparadas para o atual fluxo do metrô do que esses lixos de estação que foram construídas nos últimos 6 anos.



Logo em sua inauguração a linha já ficou saturada, em seus primeiros anos aconteceram inúmeras falhas de operação.

Isso sem falar das composições sem maquinistas. No sistema até então existe um encarregado por cada composição - que já inúmeras vezes foram os responsáveis por impedirem tragédias que aconteceriam por conta dos sistemas eletrônicos - mas na linha amarela existe uma central de comando para monitorar os trens, e como bem sabemos a lógica do mercado é de intensificação e tensificação do trabalho, portanto é óbvio que não há 1 trabalhador para cada trem. Deve haver 1 trabalhador olhando simultaneamente para diversas telas com extensa e cansativa jornada, que jamais irá dar a mesma qualidade e segurança de viagem do que um maquinista presente na composição.



Mas isso tudo é apenas um pequeno episódio das malignas PPP - Parceiras Público Privadas - que vemos aumentarem cada vez mais em nosso Estado Mínimo...

1 de outubro de 2012

"Quem mata mais ladrão ganha medalha de prêmio" - 20 anos do Massacre do Carandiru


Hoje completam 20 anos do massacre realizado pela Polícia Militar de São Paulo na Casa de Detenção São Paulo, o Massacre do Carandiru como ficou conhecido foi uma intervenção da ROTA - Rondas Ostensivas Tobias Aguiar - (conhecida pela sua atuação violenta e assassina).

De acordo com reportagem da Folha, em razão dos 10 anos do Massacre:

O tumulto na Casa de Detenção, há dez anos, teve início envolvendo dois presos no segundo andar do Pavilhão 9. Agentes penitenciários levaram os feridos para a enfermaria, no pavilhão 4, e trancam a grade de acesso ao segundo andar.
Pouco depois, os detentos conseguem romper o cadeado. O tumulto é generalizado.
Durante a rebelião, os presos queimam colchões, arquivos e montam barricadas nos corredores para impedir o acesso da polícia.
O então secretário de Segurança Pública, Pedro Franco de Campos, teria telefonado para o governador Luiz Antonio Fleury Filho, que estava viajando pelo interior do Estado. Fleury, no entanto, afirma que só foi informado sobre o tumulto.
O coronel Ubiratan Guimarães assume o comando da operação. Em uma tentativa de pôr fim à rebelião, a Polícia Militar, armada e com cães, invade a penitenciária. Os presos reagem.
Sem negociação, a Rota (Rondas Ostensivas Tobias Aguiar) ocupa o primeiro e o segundo andar do pavilhão. A tropa não é preparada para esse tipo de ação e entra no presídio fortemente armada.
Todos os presos que estavam no primeiro andar foram mortos. No segundo andar, morrem 60% dos detentos.
A contagem oficial de assassinados é de 111, mas de acordo com detentos sobreviventes da chacina, o número ultrapassa os 200 mortos, já que muitos dos feridos levados para hospitais nunca retornaram. Dos presos que morreram no massacre do Carandiru, 80% ainda esperava por uma sentença definitiva da Justiça. Só 9 tinham recebido penas acima de 20 anos.



Essa chacina se tornou famosa mundialmente e simboliza a violência das ações militares no Brasil. Nesse massacre o ódio aos detentos foi explicitado e a intervenção foi de "limpeza", mas é engano pensar que foi caso único, já que diariamente em delegacias, cadeias e nas ruas a polícia age de forma violenta em qualquer abordagem que realiza, desde autuações de trânsito, passando pelas práticas de torturas que continuam acontecendo a portas fechadas aos homicídios praticados por policiais em todo o país, que às vezes se torna notícia, porque os policiais "perdem a mão" e matam mais do que o "aceitável".

O massacre foi comandado pelo Coronel Ubiratan, que foi julgado e condenado a 632 anos de prisão, por ser réu primário ele pode recorrer em liberdade, nesse período foi eleito deputado passando a ter direito a foro privilegiado que anulou a sua sentença. (Leia mais aqui)



É importante lembrarmos disso, ainda mais com a divulgação de que os policiais envolvidos na operação começaram a ser julgados em janeiro de 2013:

Os primeiros 28 policiais militares acusados pelo massacre de 111 presos na Casa de Detenção de São Paulo em 2 de outubro de 1992 irão a julgamento no próximo dia 28 de janeiro no fórum da Barra Funda. O julgamento foi marcado nesta quinta-feira. Após duas décadas, pelo menos 79 policiais militares ainda esperam para serem julgados. (Leia mais aqui)
Apesar dos 20 anos de demora, a advogada de defesa de 79 policiais diz que o julgamento é precipitado:

"Para mim é uma surpresa. Ainda não fui notificada e me surpreende muito. Ao que parece, foi uma decisão acelerada por conta do aniversário do caso", diz ela.
De acordo com Ieda, fazer o julgamento sem a realização da perícia das armas dos policiais - que não aconteceu até hoje -, prejudica muito a defesa. "O que precisamos é individualizar a conduta de cada um dos policiais no caso. Do jeito que está, todos estão respondendo por tudo", afirma.(Leia mais aqui)
Nisso duas coisas são muito nítidas. Primeiro, querem que se demore muito mais, querem que o caso suma da memória das pessoas, querem que os responsáveis se tornem velhinhos para que fiquemos com dó de condená-los, semelhante ao que aconteceu com os responsáveis pela ditadura militar no Brasil. Segundo, querer individualizar os casos é querer culpabilizar o indivíduo policial e retirar toda a culpa da corporação e do estado.



Para além das bobagens que já escrevi por aqui, uma mensagem que realmente vale a pena. O relato de quem esteve lá, do lado de dentro das grades.




"São Paulo, dia 1º de outubro de 1992, 8h da manhã.
Aqui estou, mais um dia. Sob o olhar sanguinário do vigia. Você não sabe como é caminhar com a cabeça na mira de uma HK. Metralhadora alemã ou de Israel. Estraçalha ladrão que nem papel.

Na muralha, em pé, mais um cidadão José. Servindo o Estado, um PM bom. Passa fome, metido a Charles Bronson.

Ele sabe o que eu desejo. Sabe o que eu penso. O dia tá chuvoso. O clima tá tenso.
Vários tentaram fugir, eu também quero. Mas de um a cem, a minha chance é zero.
Será que Deus ouviu minha oração? Será que o juiz aceitou a apelação?

Mando um recado lá pro meu irmão: Se tiver usando droga, tá ruim na minha mão. Ele ainda tá com aquela mina. Pode crer, moleque é gente fina.
Tirei um dia a menos ou um dia a mais, sei lá... Tanto faz, os dias são iguais. Acendo um cigarro, e vejo o dia passar. Mato o tempo pra ele não me matar.

Homem é homem, mulher é mulher. Estuprador é diferente, né? Toma soco toda hora, ajoelha e beija os pés, e sangra até morrer na rua 10.

Cada detento uma mãe, uma crença. Cada crime uma sentença. Cada sentença um motivo, uma história de lágrima, sangue, vidas e glórias, abandono, miséria, ódio, sofrimento, desprezo, desilusão, ação do tempo.
Misture bem essa química. Pronto: eis um novo detento

Lamentos no corredor, na cela, no pátio. Ao redor do campo, em todos os cantos. Mas eu conheço o sistema, meu irmão, hã... Aqui não tem santo.

Rátátátá... preciso evitar que um safado faça minha mãe chorar. Minha palavra de honra me protege
pra viver no país das calças bege. Tic, tac, ainda é 9h40. O relógio da cadeia anda em câmera lenta. 

Ratatatá, mais um metrô vai passar. Com gente de bem, apressada, católica. Lendo jornal, satisfeita, hipócrita. Com raiva por dentro, a caminho do Centro. Olhando pra cá, curiosos, é lógico. Não, não é não, não é o zoológico. Minha vida não tem tanto valor quanto seu celular, seu computador.

Hoje, tá difícil, não saiu o sol. Hoje não tem visita, não tem futebol. Alguns companheiros têm a mente mais fraca. Não suportam o tédio, arruma quiaca. Graças a Deus e à Virgem Maria. 

Faltam só um ano, três meses e uns dias. Tem uma cela lá em cima fechada. Desde terça-feira ninguém abre pra nada. Só o cheiro de morte e Pinho Sol. Um preso se enforcou com o lençol. Qual que foi? Quem sabe? Não conta. Ia tirar mais uns seis de ponta a ponta (...) Nada deixa um homem mais doente que o abandono dos parentes.

Aí moleque, me diz: então, cê qué o quê? A vaga tá lá esperando você. Pega todos seus artigos importados.
Seu currículo no crime e limpa o rabo. A vida bandida é sem futuro. Sua cara fica branca desse lado do muro.

Já ouviu falar de Lucífer? Que veio do Inferno com moral, um dia... no Carandiru, não... ele é só mais um.
Comendo rango azedo com pneumonia...

Aqui tem mano de Osasco, do Jardim D'Abril, Parelheiros, Mogi, Jardim Brasil, Bela Vista, Jardim Angela,
Heliópolis, Itapevi, Paraisópolis. Ladrão sangue bom tem moral na quebrada. Mas pro Estado é só um número, mais nada. Nove pavilhões, sete mil homens. Que custam trezentos reais por mês, cada.

Na última visita, o neguinho veio aí. Trouxe umas frutas, Marlboro, Free... Ligou que um pilantra lá da área voltou. Com Kadett vermelho, placa de Salvador. Pagando de gatão, ele xinga, ele abusa com uma nove milímetros embaixo da blusa.

Brown: "Aí neguinho, vem cá, e os manos onde é que tá? Lembra desse cururu que tentou me matar?"
Blue: "Aquele puta ganso, pilantra corno manso. Ficava muito doido e deixava a mina só. A mina era virgem e ainda era menor. Agora faz chupeta em troca de pó!"
Brown: "Esses papos me incomoda. Se eu tô na rua é foda..."
Blue: "É, o mundo roda, ele pode vir pra cá."
Brown: "Não, já, já, meu processo tá aí. Eu quero mudar, eu quero sair. Se eu trombo esse fulano, não tem pá, não tem pum. E eu vou ter que assinar um cento e vinte e um."

Amanheceu com sol, dois de outubro. Tudo funcionando, limpeza, jumbo. De madrugada eu senti um calafrio. Não era do vento, não era do frio. Acertos de conta tem quase todo dia. Tem outra logo mais, eu sabia.
Lealdade é o que todo preso tenta. Conseguir a paz, de forma violenta. Se um salafrário sacanear alguém,
leva ponto na cara igual Frankestein Fumaça na janela, tem fogo na cela. Fudeu, foi além, se pã!, tem refém.

Na maioria, se deixou envolver por uns cinco ou seis que não têm nada a perder. Dois ladrões considerados passaram a discutir. Mas não imaginavam o que estaria por vir. Traficantes, homicidas, estelionatários.
Uma maioria de moleque primário.

Era a brecha que o sistema queria. Avise o IML, chegou o grande dia. Depende do sim ou não de um só homem. Que prefere ser neutro pelo telefone. Ratatatá, caviar e champanhe. Fleury foi almoçar, que se foda a minha mãe!

Cachorros assassinos, gás lacrimogêneo... quem mata mais ladrão ganha medalha de prêmio! O ser humano é descartável no Brasil. Como modess usado ou bombril. Cadeia? Claro que o sistema não quis. Esconde o que a novela não diz. Ratatatá! sangue jorra como água. Do ouvido, da boca e nariz.

O Senhor é meu pastor... perdoe o que seu filho fez. Morreu de bruços no salmo 23, sem padre, sem repórter. sem arma, sem socorro. Vai pegar HIV na boca do cachorro. Cadáveres no poço, no pátio interno. Adolf Hitler sorri no inferno!

O Robocop do governo é frio, não sente pena. Só ódio e ri como a hiena. Ratatatá, Fleury e sua gangue
vão nadar numa piscina de sangue. Mas quem vai acreditar no meu depoimento? Dia 3 de outubro, diário de um detento."