segunda-feira, 1 de outubro de 2012

"Quem mata mais ladrão ganha medalha de prêmio" - 20 anos do Massacre do Carandiru


Hoje completam 20 anos do massacre realizado pela Polícia Militar de São Paulo na Casa de Detenção São Paulo, o Massacre do Carandiru como ficou conhecido foi uma intervenção da ROTA - Rondas Ostensivas Tobias Aguiar - (conhecida pela sua atuação violenta e assassina).

De acordo com reportagem da Folha, em razão dos 10 anos do Massacre:

O tumulto na Casa de Detenção, há dez anos, teve início envolvendo dois presos no segundo andar do Pavilhão 9. Agentes penitenciários levaram os feridos para a enfermaria, no pavilhão 4, e trancam a grade de acesso ao segundo andar.
Pouco depois, os detentos conseguem romper o cadeado. O tumulto é generalizado.
Durante a rebelião, os presos queimam colchões, arquivos e montam barricadas nos corredores para impedir o acesso da polícia.
O então secretário de Segurança Pública, Pedro Franco de Campos, teria telefonado para o governador Luiz Antonio Fleury Filho, que estava viajando pelo interior do Estado. Fleury, no entanto, afirma que só foi informado sobre o tumulto.
O coronel Ubiratan Guimarães assume o comando da operação. Em uma tentativa de pôr fim à rebelião, a Polícia Militar, armada e com cães, invade a penitenciária. Os presos reagem.
Sem negociação, a Rota (Rondas Ostensivas Tobias Aguiar) ocupa o primeiro e o segundo andar do pavilhão. A tropa não é preparada para esse tipo de ação e entra no presídio fortemente armada.
Todos os presos que estavam no primeiro andar foram mortos. No segundo andar, morrem 60% dos detentos.
A contagem oficial de assassinados é de 111, mas de acordo com detentos sobreviventes da chacina, o número ultrapassa os 200 mortos, já que muitos dos feridos levados para hospitais nunca retornaram. Dos presos que morreram no massacre do Carandiru, 80% ainda esperava por uma sentença definitiva da Justiça. Só 9 tinham recebido penas acima de 20 anos.



Essa chacina se tornou famosa mundialmente e simboliza a violência das ações militares no Brasil. Nesse massacre o ódio aos detentos foi explicitado e a intervenção foi de "limpeza", mas é engano pensar que foi caso único, já que diariamente em delegacias, cadeias e nas ruas a polícia age de forma violenta em qualquer abordagem que realiza, desde autuações de trânsito, passando pelas práticas de torturas que continuam acontecendo a portas fechadas aos homicídios praticados por policiais em todo o país, que às vezes se torna notícia, porque os policiais "perdem a mão" e matam mais do que o "aceitável".

O massacre foi comandado pelo Coronel Ubiratan, que foi julgado e condenado a 632 anos de prisão, por ser réu primário ele pode recorrer em liberdade, nesse período foi eleito deputado passando a ter direito a foro privilegiado que anulou a sua sentença. (Leia mais aqui)



É importante lembrarmos disso, ainda mais com a divulgação de que os policiais envolvidos na operação começaram a ser julgados em janeiro de 2013:

Os primeiros 28 policiais militares acusados pelo massacre de 111 presos na Casa de Detenção de São Paulo em 2 de outubro de 1992 irão a julgamento no próximo dia 28 de janeiro no fórum da Barra Funda. O julgamento foi marcado nesta quinta-feira. Após duas décadas, pelo menos 79 policiais militares ainda esperam para serem julgados. (Leia mais aqui)
Apesar dos 20 anos de demora, a advogada de defesa de 79 policiais diz que o julgamento é precipitado:

"Para mim é uma surpresa. Ainda não fui notificada e me surpreende muito. Ao que parece, foi uma decisão acelerada por conta do aniversário do caso", diz ela.
De acordo com Ieda, fazer o julgamento sem a realização da perícia das armas dos policiais - que não aconteceu até hoje -, prejudica muito a defesa. "O que precisamos é individualizar a conduta de cada um dos policiais no caso. Do jeito que está, todos estão respondendo por tudo", afirma.(Leia mais aqui)
Nisso duas coisas são muito nítidas. Primeiro, querem que se demore muito mais, querem que o caso suma da memória das pessoas, querem que os responsáveis se tornem velhinhos para que fiquemos com dó de condená-los, semelhante ao que aconteceu com os responsáveis pela ditadura militar no Brasil. Segundo, querer individualizar os casos é querer culpabilizar o indivíduo policial e retirar toda a culpa da corporação e do estado.



Para além das bobagens que já escrevi por aqui, uma mensagem que realmente vale a pena. O relato de quem esteve lá, do lado de dentro das grades.




"São Paulo, dia 1º de outubro de 1992, 8h da manhã.
Aqui estou, mais um dia. Sob o olhar sanguinário do vigia. Você não sabe como é caminhar com a cabeça na mira de uma HK. Metralhadora alemã ou de Israel. Estraçalha ladrão que nem papel.

Na muralha, em pé, mais um cidadão José. Servindo o Estado, um PM bom. Passa fome, metido a Charles Bronson.

Ele sabe o que eu desejo. Sabe o que eu penso. O dia tá chuvoso. O clima tá tenso.
Vários tentaram fugir, eu também quero. Mas de um a cem, a minha chance é zero.
Será que Deus ouviu minha oração? Será que o juiz aceitou a apelação?

Mando um recado lá pro meu irmão: Se tiver usando droga, tá ruim na minha mão. Ele ainda tá com aquela mina. Pode crer, moleque é gente fina.
Tirei um dia a menos ou um dia a mais, sei lá... Tanto faz, os dias são iguais. Acendo um cigarro, e vejo o dia passar. Mato o tempo pra ele não me matar.

Homem é homem, mulher é mulher. Estuprador é diferente, né? Toma soco toda hora, ajoelha e beija os pés, e sangra até morrer na rua 10.

Cada detento uma mãe, uma crença. Cada crime uma sentença. Cada sentença um motivo, uma história de lágrima, sangue, vidas e glórias, abandono, miséria, ódio, sofrimento, desprezo, desilusão, ação do tempo.
Misture bem essa química. Pronto: eis um novo detento

Lamentos no corredor, na cela, no pátio. Ao redor do campo, em todos os cantos. Mas eu conheço o sistema, meu irmão, hã... Aqui não tem santo.

Rátátátá... preciso evitar que um safado faça minha mãe chorar. Minha palavra de honra me protege
pra viver no país das calças bege. Tic, tac, ainda é 9h40. O relógio da cadeia anda em câmera lenta. 

Ratatatá, mais um metrô vai passar. Com gente de bem, apressada, católica. Lendo jornal, satisfeita, hipócrita. Com raiva por dentro, a caminho do Centro. Olhando pra cá, curiosos, é lógico. Não, não é não, não é o zoológico. Minha vida não tem tanto valor quanto seu celular, seu computador.

Hoje, tá difícil, não saiu o sol. Hoje não tem visita, não tem futebol. Alguns companheiros têm a mente mais fraca. Não suportam o tédio, arruma quiaca. Graças a Deus e à Virgem Maria. 

Faltam só um ano, três meses e uns dias. Tem uma cela lá em cima fechada. Desde terça-feira ninguém abre pra nada. Só o cheiro de morte e Pinho Sol. Um preso se enforcou com o lençol. Qual que foi? Quem sabe? Não conta. Ia tirar mais uns seis de ponta a ponta (...) Nada deixa um homem mais doente que o abandono dos parentes.

Aí moleque, me diz: então, cê qué o quê? A vaga tá lá esperando você. Pega todos seus artigos importados.
Seu currículo no crime e limpa o rabo. A vida bandida é sem futuro. Sua cara fica branca desse lado do muro.

Já ouviu falar de Lucífer? Que veio do Inferno com moral, um dia... no Carandiru, não... ele é só mais um.
Comendo rango azedo com pneumonia...

Aqui tem mano de Osasco, do Jardim D'Abril, Parelheiros, Mogi, Jardim Brasil, Bela Vista, Jardim Angela,
Heliópolis, Itapevi, Paraisópolis. Ladrão sangue bom tem moral na quebrada. Mas pro Estado é só um número, mais nada. Nove pavilhões, sete mil homens. Que custam trezentos reais por mês, cada.

Na última visita, o neguinho veio aí. Trouxe umas frutas, Marlboro, Free... Ligou que um pilantra lá da área voltou. Com Kadett vermelho, placa de Salvador. Pagando de gatão, ele xinga, ele abusa com uma nove milímetros embaixo da blusa.

Brown: "Aí neguinho, vem cá, e os manos onde é que tá? Lembra desse cururu que tentou me matar?"
Blue: "Aquele puta ganso, pilantra corno manso. Ficava muito doido e deixava a mina só. A mina era virgem e ainda era menor. Agora faz chupeta em troca de pó!"
Brown: "Esses papos me incomoda. Se eu tô na rua é foda..."
Blue: "É, o mundo roda, ele pode vir pra cá."
Brown: "Não, já, já, meu processo tá aí. Eu quero mudar, eu quero sair. Se eu trombo esse fulano, não tem pá, não tem pum. E eu vou ter que assinar um cento e vinte e um."

Amanheceu com sol, dois de outubro. Tudo funcionando, limpeza, jumbo. De madrugada eu senti um calafrio. Não era do vento, não era do frio. Acertos de conta tem quase todo dia. Tem outra logo mais, eu sabia.
Lealdade é o que todo preso tenta. Conseguir a paz, de forma violenta. Se um salafrário sacanear alguém,
leva ponto na cara igual Frankestein Fumaça na janela, tem fogo na cela. Fudeu, foi além, se pã!, tem refém.

Na maioria, se deixou envolver por uns cinco ou seis que não têm nada a perder. Dois ladrões considerados passaram a discutir. Mas não imaginavam o que estaria por vir. Traficantes, homicidas, estelionatários.
Uma maioria de moleque primário.

Era a brecha que o sistema queria. Avise o IML, chegou o grande dia. Depende do sim ou não de um só homem. Que prefere ser neutro pelo telefone. Ratatatá, caviar e champanhe. Fleury foi almoçar, que se foda a minha mãe!

Cachorros assassinos, gás lacrimogêneo... quem mata mais ladrão ganha medalha de prêmio! O ser humano é descartável no Brasil. Como modess usado ou bombril. Cadeia? Claro que o sistema não quis. Esconde o que a novela não diz. Ratatatá! sangue jorra como água. Do ouvido, da boca e nariz.

O Senhor é meu pastor... perdoe o que seu filho fez. Morreu de bruços no salmo 23, sem padre, sem repórter. sem arma, sem socorro. Vai pegar HIV na boca do cachorro. Cadáveres no poço, no pátio interno. Adolf Hitler sorri no inferno!

O Robocop do governo é frio, não sente pena. Só ódio e ri como a hiena. Ratatatá, Fleury e sua gangue
vão nadar numa piscina de sangue. Mas quem vai acreditar no meu depoimento? Dia 3 de outubro, diário de um detento."


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