6 de dezembro de 2013

Drummond, "Boca"

Boca

Boca: nunca te beijarei
Boca de outro, que ris de mim,
no milímetro que nos separa,
cabem todos os abismos

Boca: se meu desejo
é importente para fechar-te
bem sabes disto, zombas
de minha raiva inútil.

Boca amarga pois impossível,
doce boca (não provarei),
ris sem beijo para mim,
beijas outro com seriedade.

(Carlos Drummond de Andrade – Brejo das almas)

5 de dezembro de 2013

O ódio aos pobres chega a um nível alarmante.

Parece que por um tempo a direita não esteve tão escancarada e que o ódio aos pobres tinha ficado uma coisa meio demodé, mas atualmente o ódio vem sendo reacendido com capas de revistas que exaltam "reis do camarote" ou criminalizam as favelas.

O que gera na pequena burguesia, abutre e receosa de perder seus poucos espaços, uma luta desesperada contra toda forma de existência dos pobres.

O perigo malthusiano é querer acabar com a pobreza matando os pobres.


Mas a alta burguesia sabe da importância da pequena burguesia e dos pobres. Ambos são peões em seu tabuleiro. Alguns desempenham o papel de torre, cavalo, até bispo. E sempre tem quem desempenhe o papel de rei e de rainha. Quantos reis e rainhas, nós temos, afinal!? São tantos. Mas ela, a grande burguesia, não se suja de sangue, suor e lágrimas, está acima do tabuleiro.

O jogo é deles, o deleite é deles. Mas precisam de seus reis, rainhas, bispos, cavalos e torres, afinal, os peões são tantos que podem se rebelar, então é necessário exterminá-los, e os que não são mortos, precisam ser destruídos em suas próprias vidas.

O problema não é a pobreza, são os pobres, mas somente aqueles por perto, que aparecem. Quem, se não eles, querem acabar com a pobreza? Sem os pobres não existiriam os ricos. Mas não é assim, um conto de fadas em que a bruxa má precisa da branca de neve, nem que o lobo mau precisa da chapeuzinho, como se fossem cara e coroa, sim e não, luz e escuro.

"O trabalho produz coisas boas para os ricos, mas produz a escassez para o trabalhador. Produz palácios, mas choupanas para o trabalhador. Produz beleza, mas deformidade para o trabalhador. Substitui o trabalho por máquinas, mas encaminha uma parte dos trabalhadores para um trabalho cruel e transforma os outros em máquinas. Produz inteligência, mas também produz estupidez e a cretinice para os trabalhadores" (Marx, 1848/2005)

Quem vai produzir coisas boas, palácios, beleza, máquinas e inteligência para ser deformado em seres quase sem vida, se não os pobres?

A questão da pobreza é enfrentada com muitas balas, mutilações cadeias, manicômios, televisão e propaganda na tentativa de mantê-los amedrontados, medicalizados, quietos, distraídos, distantes, adestrados, silenciados. Mas vivos e existindo.

"A economia política [vulgar] considera o proletário, ou seja, aquele que vive, sem capital ou renda, apenas do trabalho e de um trabalho unilateral, abstrato, como simples trabalhador. Por consequência, pode sugerir a tese de que ele, assim como um cavalo, deve receber somente o que precisa para ser capaz de trabalhar. A economia política não se ocupa dele no seu tempo livre como homem, mas deixa esse aspecto para o direito penal, os médicos, a religião, as tabelas estatísticas, a política e o funcionário de manicômio". (Marx, 1848/2005)


22 de novembro de 2013

Me alegro

Queria escrever poemas
queria que um te tocasse,
                                                já que eu não posso.

Mas como te tocar,
como te alcançar, se nem
                                               a conheço.

Em minha memória,
só vão lembranças de  um
                                                sorriso,

uma esfumaçada imagem
da beleza de um,
                                              olhar.

Mas, então, sendo assim,
Eu a conheço, e portanto,
                                               me felicito e me alegro


(Henrique Castro,
São Paulo, 16/11/2013)

19 de novembro de 2013

17 de novembro de 2013

Daquela uma vez

Uma vez, só uma vez, foi tudo que precisei.
Todo o resto é felicidade, todo o resto é a alegria
Daquela uma vez que olhou pra mim.
Uma vez.


(Henrique Castro,
São Paulo, 15/11/2013)

15 de novembro de 2013

Se compromete e vai

Se compromete e vai

Tem dias que a gente se sente
como quem partiu ou morreu.
Mas isso aí já foi escrito antes
e o tem dias pra mim, é hoje.

Tem dias que a gente nem sabe
o que sente, e se sente,
como se o que sente já partiu ou
morreu, mas você sabe que não.

Mas o mundo vai pra frente, ou
pelo menos gira, e pelo menos nunca
é boa expressão. Pelo menos é
derrota. Mas roda o mundo, o moinho

e o pião sou eu, nas voltas do meu
coração que Vai contra corrente, porque
já aprendeu que corrente só aprisiona

e vai indo, indo, indo, e de novo,
num instante, nas voltas, ele bate
de novo.

Mas com ele não se brinca, não se engana,
se compromete e vai.

(com música incidental de Chico Buarque, valeu Chico!)

- Henrique Castro
São Paulo
15/11/2013

15 de abril de 2013

Engraçadas cenas da corrupção cotidiana do cafézinho

Engraçadas cenas da corrupção cotidiana do cafézinho.

Estou na rodoviária. Parado há algumas horas em um café, aproveitando o tempo de espera para estudar.

Chega um grupo de homens, nitidamente da classe trabalhadora, roupas simples, chinelos e bastante bem-humorados conversando com as trabalhadoras do café sobre a receita do sanduíche da cidade que estamos e sobre futebol.

Instantes depois estaciona um carro de polícia aqui na frente, com as luzes do teto ligadas. Os homens aqui brincam "já chamaram a polícia pra nós". Uma das mulheres do balcão diz "é nada, esses aparecem toda noite tomar o cafézinho e pão de queijo deles". Um outro homem da turma diz algo como "aposto que é de graça". A mesma trabalhadora responde de forma côrtes, "ah, é cortesia. Eles fazem a segurança por aqui".

Em pouco mais de 10 minutos, ou o tempo de eu escrever essas breves linhas, eles passam algumas cantadas nas garçonetes, riem alto, tomam seu café, brincam com outras pessoas no café, entram no carro e vão embora.

Curioso, sempre tive a certeza de que esses policiais, fossem pagos para fazer a segurança dali e não que o fizessem por café cortesia.

Não que a cortesia e uma troca de solidariedade não sejam bem-vindas, o problema é o sistema dos diversos cafézinhos, bolinhos, trocados e outras barganhas que tais servidores públicos fazem no exercício de sua atividade empregatícia.

Principalmente pelo motivo do estabelecimento de quem não entra nessa, perde seus direitos de proteção, afinal nunca colaboraram com o pãozinho de queijo.

Ou do plano de saúde que te coloca na frente da fila de um equipamento que só tem no hospital do SUS.

Ou do vereador que leva saneamento pra sua rua, por conta do seu apoio na campanha.

Ou, ou, ou ou...

É muito próximo do funcionamento de qualquer máfia. Mas é o serviço público.

Mas isso não é uma ode à iniciativa privada dos serviços, afinal nela o funcionamento mafioso, criminoso e corruptor é modus operandi mínimo.

Também não é micropolítica em dizer de que se todos de baixo estivessem fazendo sua parte, as coisas mudariam.

Daqui de baixo, é só o reflexo de um sistema de relações baseado na competição e individualidade.

Portanto o "tudo bem, eu pelo menos estou fazendo minha parte", é tão competitivo e individual quanto.

Não há saídas individuais. Só a luta muda a vida.



26 de fevereiro de 2013

#Os Filhos dos Dias - Mais crianças roubadas...

Continuação da postagem: Crianças roubadas...

FEVEREIRO
16

Operação Condor

Macarena Gelman é uma das muitas vítimas da Operação Condor, que foi o nome dado ao mercado do terror articulado pelas ditaduras militares sul-americanas.
A mãe de Macarena estava grávida dela quando os militares argentinos a mandaram para o Uruguai. A ditadura uruguaia se encarregou do parto, matou a mãe e deu a filha recém-nascida de presente a um chefe de polícia.
Durante a infância inteira, Macarena dormiu atormentada por um pesadelo inexplicável, que se repetira noite após noite: era perseguida por homens armados até os dentes, e acordava chorando.
O pesadelo deixou de ser inexplicável quando Macarena descobriu a verdadeira história da sua vida. E então ficou sabendo que ela havia sonhado, lá na sua infância, os pânicos de sua mãe: sua mãe, que a estava modelando no ventro enquanto fugia da caçada militar que acabou alcançando-a e a mandou para a morte.

Macarena Gelman e Eduardo Galeano



Acompanhe a sequência de postagens #Os filhos dos dias - http://bit.ly/Palp-filhos-dias
Retirado do livro:
Eduardo Galeano - Os filhos dos dias. Editora L&PM, 2012.

21 de fevereiro de 2013

#Os Filhos dos Dias - O mundo encolhe

Fevereiro

21

O mundo encolhe


Hoje é o dia das línguas maternas.
A cada duas semanas, morre um idioma.
O mundo diminui quando perde seus humanos dizeres, da mesma forma que encolhe quando poerde a diversidade de suas plantas e bichos.
Em 1974, morreu Ângela Loij, uma das últimas indígenas onas da Terra do Fogo, lá no fim do mundo; e a última que falava a sua língua.
Ângela cantava sozinha, cantava para ninguém, nessa língua que ninguém mais lembrava:

Vou andando pelas pegadas
daqueles que já se foram.
Estou perdida.
Nos tempos idos, os onas adoravam vários deuses. O deus supremo se chamava Pemaulk.
Pemaulk significa palavra.




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Retirado do livro:
Eduardo Galeano - Os filhos dos dias. Editora L&PM, 2012.

19 de fevereiro de 2013

Crianças roubadas

 FEVEREIRO
14

Crianças roubadas


 Os filhos dos inimigos foram prenda de guerra da ditadura militar argentina, que roubou mais de quinhentas crianças em anos recentes.
Muito mais crianças foram roubadas, porém, e durante muito mais tempo, pela democracia australiana, dentro da lei e debaixo de aplausos do público.
No ano de 2008, o primeiro-ministro da Austrália, Kevin Rudd, pediu perdão aos indígenas que tinham sido despojados de seus filhos durante mais de um século.
As agências estatais e as igrejas cristãs haviam sequestrado as criançcas, que foram distribuídas por famílias brancas, para salvá-las da pobreza e da delinquência e para civilizá-las e afastá-las dos hábitos selvagens.
Para branquear os negros, diziam.





FEVEREIRO
15

Outras crianças roubadas


 - O marxismo é a máxima forma da patologia mental - havia sentenciado o coronel Antonio Vallejo Nájera, psiquiatra supremo na Espanha do generalíssimo Francisco Franco.
Ele havia estudado, nas prisões, as mães republicanas, e havia comprovado que elas tinham instintos criminosos.
Para defender a pureza da raça ibérica, ameaçada pela degeneração marxista e pela criminalidade materna, milhares de crianças recém-nascidas ou muito pequenas, filhas de pais republicanos, foram sequestradas e arrojadas aos braços das famílias devotas da cruz e espada.
Quem foram essas crianças? Quem são, tantos anos depois?
Não se sabe.
A ditadura franquista inventou documentos falsos, que apagaram suas pistas, e aplicou a lei do esquecimento: roubou as crianças e roubou a memória.






Reportagens 1, 2, 3 e 4






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Retirado do livro:
Eduardo Galeano - Os filhos dos dias. Editora L&PM, 2012.