26 de fevereiro de 2013

#Os Filhos dos Dias - Mais crianças roubadas...

Continuação da postagem: Crianças roubadas...

FEVEREIRO
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Operação Condor

Macarena Gelman é uma das muitas vítimas da Operação Condor, que foi o nome dado ao mercado do terror articulado pelas ditaduras militares sul-americanas.
A mãe de Macarena estava grávida dela quando os militares argentinos a mandaram para o Uruguai. A ditadura uruguaia se encarregou do parto, matou a mãe e deu a filha recém-nascida de presente a um chefe de polícia.
Durante a infância inteira, Macarena dormiu atormentada por um pesadelo inexplicável, que se repetira noite após noite: era perseguida por homens armados até os dentes, e acordava chorando.
O pesadelo deixou de ser inexplicável quando Macarena descobriu a verdadeira história da sua vida. E então ficou sabendo que ela havia sonhado, lá na sua infância, os pânicos de sua mãe: sua mãe, que a estava modelando no ventro enquanto fugia da caçada militar que acabou alcançando-a e a mandou para a morte.

Macarena Gelman e Eduardo Galeano



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Retirado do livro:
Eduardo Galeano - Os filhos dos dias. Editora L&PM, 2012.

21 de fevereiro de 2013

#Os Filhos dos Dias - O mundo encolhe

Fevereiro

21

O mundo encolhe


Hoje é o dia das línguas maternas.
A cada duas semanas, morre um idioma.
O mundo diminui quando perde seus humanos dizeres, da mesma forma que encolhe quando poerde a diversidade de suas plantas e bichos.
Em 1974, morreu Ângela Loij, uma das últimas indígenas onas da Terra do Fogo, lá no fim do mundo; e a última que falava a sua língua.
Ângela cantava sozinha, cantava para ninguém, nessa língua que ninguém mais lembrava:

Vou andando pelas pegadas
daqueles que já se foram.
Estou perdida.
Nos tempos idos, os onas adoravam vários deuses. O deus supremo se chamava Pemaulk.
Pemaulk significa palavra.




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19 de fevereiro de 2013

Crianças roubadas

 FEVEREIRO
14

Crianças roubadas


 Os filhos dos inimigos foram prenda de guerra da ditadura militar argentina, que roubou mais de quinhentas crianças em anos recentes.
Muito mais crianças foram roubadas, porém, e durante muito mais tempo, pela democracia australiana, dentro da lei e debaixo de aplausos do público.
No ano de 2008, o primeiro-ministro da Austrália, Kevin Rudd, pediu perdão aos indígenas que tinham sido despojados de seus filhos durante mais de um século.
As agências estatais e as igrejas cristãs haviam sequestrado as criançcas, que foram distribuídas por famílias brancas, para salvá-las da pobreza e da delinquência e para civilizá-las e afastá-las dos hábitos selvagens.
Para branquear os negros, diziam.





FEVEREIRO
15

Outras crianças roubadas


 - O marxismo é a máxima forma da patologia mental - havia sentenciado o coronel Antonio Vallejo Nájera, psiquiatra supremo na Espanha do generalíssimo Francisco Franco.
Ele havia estudado, nas prisões, as mães republicanas, e havia comprovado que elas tinham instintos criminosos.
Para defender a pureza da raça ibérica, ameaçada pela degeneração marxista e pela criminalidade materna, milhares de crianças recém-nascidas ou muito pequenas, filhas de pais republicanos, foram sequestradas e arrojadas aos braços das famílias devotas da cruz e espada.
Quem foram essas crianças? Quem são, tantos anos depois?
Não se sabe.
A ditadura franquista inventou documentos falsos, que apagaram suas pistas, e aplicou a lei do esquecimento: roubou as crianças e roubou a memória.






Reportagens 1, 2, 3 e 4






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