20 de março de 2015

Dead Fish: Alguma esperança no ~conservador e reacionário~ rock

O rock surge com muitas raízes e influências. Apesar de uma estética pretensamente rebelde, eticamente ele costuma ser conservador, e muitas vezes reacionário.

Mas não em sua totalidade, claro.

E por isso que é muito feliz encontrar quem, e por anos, continua sendo estética e eticamente rebelde, e porque não revolucionário. Na avassaladora onda conservadora que vivemos, é ótimo encontrar quem se põe aí na oposição ao mesmismo boçal.

Na última semana tivemos ótimas posições da Pitty, e ontem e hoje do Dead Fish.

Nota Dead Fish

Declarações Pitty

Lembrei de quando ouvia muito o "Sonho Médio", que além de ajudar a me dar um 10 em redação do ensino médio, ajudou em minha formação política que nada tem de cidadã!

Então, vamos lá...

Cidadão Padrão!

" Assinar o ponto,
Seu transporte está lotado!
Não há companheiros,
Ninguém está ao seu lado!
Só a fome a miséria,
O circo e o pão.
Você acha arriscado fazer a revolução, então
Deve aceitar o seu patrão.
Seria demais dividir as coisas que você já tem, cerveja, um par de tênis e um caos."


18 de março de 2015

A Flor e a Náusea



Para os tempos atuais, um poema - ainda - atemporal.

A Flor e a Náusea
(Carlos Drummond de Andrade)


Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias, espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

Vomitar este tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.